sábado, 8 de novembro de 2014

3- O Banho ao Lince


3-      O Banho ao Lince

A Lavadeira Firmeza escutou o apelo da filha Pastora e caçou o Lince que não era lince, no instante em que ele atravessava o Rio das Fragrâncias.

Fez de conta que não percebeu o disfarce e aproveitou para dar um banho de sais purificantes na voracidade inscrita no pelo do animal, até porque logo descobriu que era o Príncipe Deslumbrate a tentar cativar a sua filha, a Pastora Serena. Sua Alteza passava a vida a competir com o irmão, o Príncipe Atua, pela atenção da Pastora, destarte agia sempre de forma inadequada.

– Oh, meu querido, suas rabiscos de rancor e raiva. Que te fizeram para te sentires tão amargurado? – questionou a Lavadeira, a deslizar a esponja amaciadora de sentimentos nefastos no pelo do Lince.

– Rrrrrr! – rosnava Sua Alteza, de tédio, sem que pudesse dizer uma palavra para que a Lavadeira parasse com aquela intromissão.

– Oh, meu bebé, quem não gosta de ti, quem é, quem é? – ironizou, farta de saber dos intentos do Príncipe em relação à sua filha. – Não fiques assim. Talvez fosse boa ideia abrires o teu coração e tocares de verdade na vida de quem amas… Talvez devesses mostrar quem és aos olhos de quem, assim, não te consegue ver… – prosseguiu a Lavadeira, com as suas orações, em jeito de conselho, e o cântaro a verter a cascata da sabedoria.

– Rrrrrr! – O Lince rosnava, maçado e apreensivo, quanto àquele banho público.

– Agora, tosquio-te este pelo… está calor sabes? Não sou a Serena, mas … Vamos pôr-te a corar no Deserto Cor de Telha e escovar-te essas aparas de desdém, esses restos entranhados de dizeres ciumentos e invejosos, sim? – acarinhou a Firmeza, em tom de exortação a bons sentimentos.

– Rrrrrr! – reverberou o Lince,  deveras enfastiado com a troca de mãos.

– Prontinho! Ah, espera! Falta cortar-te estas unhas, demasiado afiadas, sinto-lhes uma pontada de azedume, a arranhar a minha boa vontade. – completou a Lavadeira.

– Rrrrrr! – entalou-se o Lince, não muito convencido com o tratamento digno de um Spa, mas  a sentir-se fresquinho.

– Ui, ui, ui! Já só falta retirar a sujidade dos olhos, estas ramelas escuras, carregadas de atrocidade e vingança. Não vês que assim ficas cego para as coisas bonitas da vida, tolinho? 

Apurou o banho, ao aplicar o algodão doce, camada sobre camada, nos cantos peganhentos dos olhos e nas esquinas raivosas da boca. E o Príncipe não mais rosnou. Ao invés, estirou-se no leito do rio, e deixou-se ir, a boiar, de barriga estendida ao sol.

A Lavadeira Firmeza sabia como limpar a consciência das criaturas de atos impuros e maldosos, porém o tratamento não surtia um efeito duradouro. No caso do Príncipe, porque dotado de poderes de Sua Alteza, ficaria calmo apenas algumas horas, o suficiente para que todo o reino pudesse celebrar aquelas tréguas, especialmente a sua filha Serena, o rebanho matizado e o cão de guarda, o querido Repro.

O Príncipe nem sempre era assim tão descuidado. Às vezes, talvez por falta de descanso, distraía-se e era apanhado nas malhas da Lavadeira Firmeza.

Deslumbrate havia tentado, mais uma vez, chegar perto da filha da Lavadeira. Não é de agora que o Príncipe tem um fraquinho, uma paixoneta, pela Pastora, pese embora escolha sempre o animal errado para estabelecer contacto.

– Ai, Repro, aquele Lince olha-me com uma ferocidade que até dói. Meu querido Repro, meu querido cão de guarda, acho que o Lince me quer comer…

– Au, au, au!

– Isso, ladra, ladra! Pode ser que o bicho se assuste. Ai, minhas ricas ovelhas, entornai esses pólenes ao vento. Deus queira que o Lince seja alérgico e se canse de tanto espirrar. – orou a Pastora Serena.

– Rrrrrrr!

– Ai, rosna tanto… Será que vai atacar-nos? Minhas ricas ovelhas, minhas doces matizadas, oh, como elas fogem!

 Au, au, au!

– Mamã! É estranho este Lince! Ronda, e ronda e ronda… Xô, p’ra lá, xô!

– Eu trato dele, Serena. Vem cá, bichinho, vem cá à Firmeza, vem… isso, entra aqui no Rio, sente as Fragrâncias… olha o soninho a chegar… Vem, escuta… água límpida e suave, ouve, não é relaxante? Parecem palmas. Tão fresquinha, hmmm!

Conceição Sousa in "Em Busca da Flor de Mil Cores 3"

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