3- O Banho ao Lince
A Lavadeira Firmeza escutou o apelo da filha
Pastora e caçou o Lince que não era lince, no instante em que ele atravessava o
Rio das Fragrâncias.
Fez de conta que não percebeu o disfarce e
aproveitou para dar um banho de sais purificantes na voracidade inscrita no pelo
do animal, até porque logo descobriu que era o Príncipe Deslumbrate a tentar
cativar a sua filha, a Pastora Serena. Sua Alteza passava a vida a competir com
o irmão, o Príncipe Atua, pela atenção da Pastora, destarte agia sempre de
forma inadequada.
– Oh, meu querido, suas rabiscos de rancor e
raiva. Que te fizeram para te sentires tão amargurado? – questionou a Lavadeira,
a deslizar a esponja amaciadora de sentimentos nefastos no pelo do Lince.
– Rrrrrr! – rosnava Sua Alteza, de tédio, sem
que pudesse dizer uma palavra para que a Lavadeira parasse com aquela
intromissão.
– Oh, meu bebé, quem não gosta de ti, quem é,
quem é? – ironizou, farta de saber dos intentos do Príncipe em relação à sua
filha. – Não fiques assim. Talvez fosse boa ideia abrires o teu coração e
tocares de verdade na vida de quem amas… Talvez devesses mostrar quem és aos
olhos de quem, assim, não te consegue ver… – prosseguiu a Lavadeira, com as
suas orações, em jeito de conselho, e o cântaro a verter a cascata da
sabedoria.
– Rrrrrr! – O Lince rosnava, maçado e
apreensivo, quanto àquele banho público.
– Agora, tosquio-te este pelo… está calor
sabes? Não sou a Serena, mas … Vamos pôr-te a corar no Deserto Cor de Telha e
escovar-te essas aparas de desdém, esses restos entranhados de dizeres
ciumentos e invejosos, sim? – acarinhou a Firmeza, em tom de exortação a bons
sentimentos.
– Rrrrrr! – reverberou o Lince, deveras enfastiado com a troca de mãos.
– Prontinho! Ah, espera! Falta cortar-te estas
unhas, demasiado afiadas, sinto-lhes uma pontada de azedume, a arranhar a minha
boa vontade. – completou a Lavadeira.
– Rrrrrr! – entalou-se o Lince, não muito
convencido com o tratamento digno de um Spa, mas a sentir-se fresquinho.
– Ui, ui, ui! Já só falta retirar a sujidade
dos olhos, estas ramelas escuras, carregadas de atrocidade e vingança. Não vês
que assim ficas cego para as coisas bonitas da vida, tolinho?
Apurou o banho, ao aplicar o algodão doce,
camada sobre camada, nos cantos peganhentos dos olhos e nas esquinas raivosas
da boca. E o Príncipe não mais rosnou. Ao invés, estirou-se no leito do rio, e
deixou-se ir, a boiar, de barriga estendida ao sol.
A Lavadeira Firmeza sabia como limpar a consciência
das criaturas de atos impuros e maldosos, porém o tratamento não surtia um
efeito duradouro. No caso do Príncipe, porque dotado de poderes de Sua Alteza,
ficaria calmo apenas algumas horas, o suficiente para que todo o reino pudesse celebrar
aquelas tréguas, especialmente a sua filha Serena, o rebanho matizado e o cão
de guarda, o querido Repro.
O Príncipe nem sempre era assim tão
descuidado. Às vezes, talvez por falta de descanso, distraía-se e era apanhado
nas malhas da Lavadeira Firmeza.
Deslumbrate havia tentado, mais uma vez,
chegar perto da filha da Lavadeira. Não é de agora que o Príncipe tem um
fraquinho, uma paixoneta, pela Pastora, pese embora escolha sempre o animal
errado para estabelecer contacto.
– Ai, Repro, aquele Lince olha-me com uma
ferocidade que até dói. Meu querido Repro, meu querido cão de guarda, acho que
o Lince me quer comer…
– Au, au, au!
– Isso, ladra, ladra! Pode ser que o bicho se
assuste. Ai, minhas ricas ovelhas, entornai esses pólenes ao vento. Deus queira
que o Lince seja alérgico e se canse de tanto espirrar. – orou a Pastora
Serena.
– Rrrrrrr!
– Ai, rosna tanto… Será que vai atacar-nos?
Minhas ricas ovelhas, minhas doces matizadas, oh, como elas fogem!
– Au,
au, au!
– Mamã! É estranho este Lince! Ronda, e ronda
e ronda… Xô, p’ra lá, xô!
– Eu trato dele, Serena. Vem cá, bichinho,
vem cá à Firmeza, vem… isso, entra aqui no Rio, sente as Fragrâncias… olha o
soninho a chegar… Vem, escuta… água límpida e suave, ouve, não é relaxante?
Parecem palmas. Tão fresquinha, hmmm!
Conceição Sousa in "Em Busca da Flor de Mil Cores 3"
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