quinta-feira, 6 de novembro de 2014

1- Ulisses


1-     Ulisses

Boas! Voltaste? Confesso que já tinha saudades tuas. Então? Esses testes? Há bons resultados ou não? Vê lá isso, podes sempre melhorar. Curioso quanto à história, é?

A mãe zangou-se connosco ontem, sabes? Dou o braço a torcer: sou impecável a dar conselhos, porém tenho dificuldade em segui-los, e precisei de ouvir um raspanete.

Se tivermos um computador à mão, não resistimos a jogar online. A mãe sabia que tínhamos de estudar história e matemática. Até disse que ser conhecedor de factos históricos e matemáticos é muito importante para ajudar a compreender o momento presente e a evitar danos futuros. Fizemos birra, e ela mudou de expressão: os lábios cerrados e fininhos, fininhos. Quando se zanga, o rosto dela fica assim, coberto de engelhas também, nos cantos da boca e ao centro da testa. Parece um bulldog pronto a atacar (sem ofensa para o cão, cruzes!). Que diria o Ulisses se a visse assim, ‘tadinho…

Quem é o Ulisses? Ah, pois… ainda não te falei do mais recente membro do nosso clã. O Ulisses é o nosso Yorkshire Terrier Mini, um cachorrinho que nos veio parar às mãos com apenas dois meses e que, agora, tem cerca de seis. É um deslumbrado e um assustadiço. Aquelas orelhas erguem-se sempre que algo lhe desperta a atenção e aguardam a hora das patas “foguetearem” (uma palavra a que atribuí um sentido diferente para que visualizes o grau de velocidade que as patas adquirem quando algo lhe interessa; não é bem deitar foguetes, é ficarem em lume como um foguetão acabado de ser propulsado para o espaço).  

Quando chega a hora das patas foguetearem, os olhos cegam. Esbarra em tudo o que se atravessa no seu caminho. Só lhe interessa disparar até algures, corre abruptamente sem qualquer objetivo ou propósito. Corre só por correr. Por causa do Ulisses, a mãe aderiu a um seguro quebra-vidros. Sabes que Ulisses é uma figura bem conhecida da literatura… Pesquisa lá no Google, eu aguardo…

O nosso Ulisses assusta-se com qualquer barulhinho: a chuva, o som da máquina de lavar loiça, o fogo-de-artifício. Salta para o nosso colo, a tremelicar, e enconcha-se até que o susto passe. É um bom cão de guarda: late sempre que escuta um ruído invulgar.

– Au, au!

Ouviste? E se há sombra mais eficiente do que a nossa própria sombra é o Ulisses: segue-nos fielmente p’ra tudo quanto é lado.

– Au, au!

– Cala-te, chato! Chiu!

Na hora das refeições, é uma sarna. Não desgruda, coloca as patitas nos nossos joelhos, arranha o mais que pode, gane muito subtilmente, pedincha mesmo, até que alguém lhe dê à boca um bocadinho do farnel.

– Auuuu, auuuu!

Todos, cá em casa, apaixonaram-se pelo bicho. É uma ternurinha. Porco como tudo, todavia uma ternurinha.

Afinal é porco ou cão?, perguntas. É porco. Porco, porco, porco. Porque é preguiçoso e não se habitua a fazer o cocó e o chichi na rua. A mãe passa-se! Não há um dia em que os resíduos  espalhados pela casa não tenham de ser recolhidos. Se valessem como pistas para encontrar as caches no Reino de Encanta o Espanto ou Espanta o Encanto, só pelo cheiro depressa descobriríamos os amuletos mágicos.

– Au, au!

– É verdade, pá! Fedes como tudo! Sossegadinho, agora, sim? Senão a mãe começa já aos berros a ameaçar que te atira da varanda abaixo.

Não atira nada. Costuma dizer esta barbaridade quando nós nos tornamos ainda mais preguiçosos do que o Ulisses e nos recusamos a limpar os dejetos. Aborrecemos qualquer um.

  Eu já limpei, é a tua vez!

– É a minha vez nada. Limpa tu. Ainda há bocado fui eu que limpei ao pé da casa de banho.

– Fala baixo. Queres que a mãe diga aquilo que odiamos ouvir?

– Achas que ela tinha coragem de arrimar o bicho pela varanda abaixo?

– Claro que não! Não sejas idiota! Eu vou limpar, acabou-se o assunto.

Só te falei do Ulisses por causa da cara de Bulldog da mãe quando se zanga. Tudo porque somos uma espécie de pré-adolescentes, com a mania de que somos mais adultos do que o que realmente somos. De facto, em termos físicos, já somos maiores do que a mãe – ela é baixinha, 1.58m. E nós estamos ali entre 1,65 e 1,70. P’ra não mencionar o Augusto, o nosso tio, irmão mais novo da mãe, ainda de férias com os amigos, e que já trepa uns 1,90, apesar dos seus 19 anos. Nem queiras saber o que ouvimos por batermos o pé às nossas obrigações de rebento. Deves fazer uma pequena ideia pela bisbilhotice de quem limpa o quê…

Eu queria que a mãe continuasse a história do Bugalhudo e da Caracolitas, queria saber como é que o Amuleto da Levitação, deixado pelo Príncipe Atua na cache que os geocachers encontraram, lá na boca do Vulcão Enxofre, vai ajudar os meninos, o Mago, a Mosca Verruga e o Chamusca a resolverem os desafios que os aguardam na Armadilha do Céu.

E porque é que o Céu é uma armadilha, óbvio!

As palavras do Príncipe Atua, escritas no bilhete que estava junto com o Amuleto da Levitação na cache, zumbem-me no ouvido, ou talvez seja a Mosca Verruga, Zzzzzz!

 

“ Este é o Amuleto da Levitação.

Usa-o para pisares o Céu:

Anula a gravidade da queda

e reforça a firmeza do chão.

 

Assinado: Príncipe Atua.”

 

Hummm! É um enigma interessante. Como é possível alguém pisar o Céu? O Céu não se pisa, no Céu voa-se. E os meninos não são pássaros nem aviões nem sequer anjos para conseguirem voar. Ou será que vão ganhar asas? Que parvoíce! O bilhete fala em pisar. E as asas não servem para pisar.

A mãe, no entanto, não está virada para continuar a contar a história, o que é pena… haja paciência.
 
Conceição Sousa in "Em Busca da Flor de Mil Cores 2"

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