1- Ulisses
Boas! Voltaste? Confesso que já tinha
saudades tuas. Então? Esses testes? Há bons resultados ou não? Vê lá isso, podes
sempre melhorar. Curioso quanto à história, é?
A mãe zangou-se connosco ontem, sabes?
Dou o braço a torcer: sou impecável a dar conselhos, porém tenho dificuldade em
segui-los, e precisei de ouvir um raspanete.
Se tivermos um computador à mão, não
resistimos a jogar online. A mãe sabia que tínhamos de estudar história e
matemática. Até disse que ser conhecedor de factos históricos e matemáticos é
muito importante para ajudar a compreender o momento presente e a evitar danos
futuros. Fizemos birra, e ela mudou de expressão: os lábios cerrados e
fininhos, fininhos. Quando se zanga, o rosto dela fica assim, coberto de
engelhas também, nos cantos da boca e ao centro da testa. Parece um bulldog
pronto a atacar (sem ofensa para o cão, cruzes!). Que diria o Ulisses se a
visse assim, ‘tadinho…
Quem é o Ulisses? Ah, pois… ainda não
te falei do mais recente membro do nosso clã. O Ulisses é o nosso Yorkshire Terrier
Mini, um cachorrinho que nos veio parar às mãos com apenas dois meses e que,
agora, tem cerca de seis. É um deslumbrado e um assustadiço. Aquelas orelhas
erguem-se sempre que algo lhe desperta a atenção e aguardam a hora das patas
“foguetearem” (uma palavra a que atribuí um sentido diferente para que visualizes
o grau de velocidade que as patas adquirem quando algo lhe interessa; não é bem
deitar foguetes, é ficarem em lume como um foguetão acabado de ser propulsado
para o espaço).
Quando chega a hora das patas foguetearem,
os olhos cegam. Esbarra em tudo o que se atravessa no seu caminho. Só lhe
interessa disparar até algures, corre abruptamente sem qualquer objetivo ou
propósito. Corre só por correr. Por causa do Ulisses, a mãe aderiu a um seguro
quebra-vidros. Sabes que Ulisses é uma figura bem conhecida da literatura…
Pesquisa lá no Google, eu aguardo…
O nosso Ulisses assusta-se com
qualquer barulhinho: a chuva, o som da máquina de lavar loiça, o fogo-de-artifício.
Salta para o nosso colo, a tremelicar, e enconcha-se até que o susto passe. É
um bom cão de guarda: late sempre que escuta um ruído invulgar.
– Au, au!
Ouviste? E se há sombra mais eficiente
do que a nossa própria sombra é o Ulisses: segue-nos fielmente p’ra tudo quanto
é lado.
– Au, au!
– Cala-te,
chato! Chiu!
Na hora das refeições, é uma sarna. Não
desgruda, coloca as patitas nos nossos joelhos, arranha o mais que pode, gane
muito subtilmente, pedincha mesmo, até que alguém lhe dê à boca um bocadinho do
farnel.
– Auuuu, auuuu!
Todos, cá em casa, apaixonaram-se
pelo bicho. É uma ternurinha. Porco como tudo, todavia uma ternurinha.
Afinal é porco ou cão?, perguntas. É
porco. Porco, porco, porco. Porque é preguiçoso e não se habitua a fazer o cocó
e o chichi na rua. A mãe passa-se! Não há um dia em que os resíduos espalhados pela casa não tenham de ser
recolhidos. Se valessem como pistas para encontrar as caches no Reino de
Encanta o Espanto ou Espanta o Encanto, só pelo cheiro depressa descobriríamos
os amuletos mágicos.
– Au, au!
– É verdade, pá! Fedes como tudo!
Sossegadinho, agora, sim? Senão a mãe começa já aos berros a ameaçar que te
atira da varanda abaixo.
Não atira nada. Costuma dizer esta
barbaridade quando nós nos tornamos ainda mais preguiçosos do que o Ulisses e
nos recusamos a limpar os dejetos. Aborrecemos qualquer um.
–
Eu já limpei, é a tua vez!
– É a minha vez nada. Limpa tu. Ainda
há bocado fui eu que limpei ao pé da casa de banho.
– Fala baixo. Queres que a mãe diga
aquilo que odiamos ouvir?
– Achas que ela tinha coragem de
arrimar o bicho pela varanda abaixo?
– Claro que não! Não sejas idiota! Eu
vou limpar, acabou-se o assunto.
Só te falei do Ulisses por causa da
cara de Bulldog da mãe quando se zanga. Tudo porque somos uma espécie de
pré-adolescentes, com a mania de que somos mais adultos do que o que realmente
somos. De facto, em termos físicos, já somos maiores do que a mãe – ela é
baixinha, 1.58m. E nós estamos ali entre 1,65 e 1,70. P’ra não mencionar o
Augusto, o nosso tio, irmão mais novo da mãe, ainda de férias com os amigos, e
que já trepa uns 1,90, apesar dos seus 19 anos. Nem queiras saber o que ouvimos
por batermos o pé às nossas obrigações de rebento. Deves fazer uma pequena
ideia pela bisbilhotice de quem limpa o quê…
Eu queria que a mãe continuasse a
história do Bugalhudo e da Caracolitas, queria saber como é que o Amuleto da
Levitação, deixado pelo Príncipe Atua na cache que os geocachers encontraram,
lá na boca do Vulcão Enxofre, vai ajudar os meninos, o Mago, a Mosca Verruga e
o Chamusca a resolverem os desafios que os aguardam na Armadilha do Céu.
E porque é que o Céu é uma armadilha,
óbvio!
As palavras do Príncipe Atua,
escritas no bilhete que estava junto com o Amuleto da Levitação na cache,
zumbem-me no ouvido, ou talvez seja a Mosca Verruga, Zzzzzz!
“ Este é o Amuleto da Levitação.
Usa-o para pisares o Céu:
Anula a gravidade da queda
e reforça a firmeza do chão.
Assinado: Príncipe Atua.”
Hummm! É um enigma interessante. Como
é possível alguém pisar o Céu? O Céu não se pisa, no Céu voa-se. E os meninos
não são pássaros nem aviões nem sequer anjos para conseguirem voar. Ou será que
vão ganhar asas? Que parvoíce! O bilhete fala em pisar. E as asas não servem
para pisar.
A mãe, no entanto, não está virada
para continuar a contar a história, o que é pena… haja paciência.
Conceição Sousa in "Em Busca da Flor de Mil Cores 2"
Sem comentários:
Enviar um comentário