2- Guerra de Titãs
– Arre! Posso começar, meninos? Se
não se acalmarem, se não pararem de correr, se não estiverem quietos,
sentadinhos, caladinhos e sossegadinhos a ouvir-me, não há história p’ra
ninguém! Entendido? Então como é? Estou a falar para o boneco?
– Para, André! Não vês que a mãe está
a falar? E quando um burro fala os outros baixam as orelhas! – rematou a Juliana.
– O que é isso, menina? Queres ser
castigada? – enfureceu-se.
– Oh, desculpa, mamã! É uma maneira
de dizer. – remediou-se a menina.
– Oh, desculpa, mamã! É uma maneira
de dizer! – imitou o André, num tom lânguido de desdém, muito próprio de manos
a embirrar com manas. – Parece uma Barbie, armada em senhoreca, com os tacões
altos, a bolsinha no braço, o colar de esmeraldas ao pesco…
– Minha Nossa Senhora! Queres
calar-te, André? – avisou a mãe, em tom de castigo iminente.
– … ço. Pescoço. E batom! Vês, mamã! A boneca
dos Morangos usa batom! – troçou o rapaz, não satisfeito.
– Poça, rapaz! Cala-te! Pelo amor da
santa! Tens um feitio tão feio. Olha que assim poucos amigos terás na vida!
Estima a tua irmã, filho. Sempre a guerrear, sempre a guerrear. – suplicou,
visivelmente derreada.
– Está bem, mamã, sossega. – abraçou-a com
ares de mimo.
– Ai, ai, ai, ai, menina! – replicou,
na direção da filha. – Não penses que
não te vi a deitar a língua de fora. Não sejas sonsa. E que maneira tão tonta
de falar! Agora a mãe é uma burra? Há provérbios que não se repetem, ouviste? E
não gosto que ponhas batom, nem que vejas os Morangos!
– Desculpa, mamã. – choramingou a menina, enquanto
abraçava a progenitora, visivelmente a competir com o irmão.
– Hummm!, já passou, pronto; já passou. Posso
começar, Exmo. Sr. Dr. Sorriso Amarelo?
– Ele
passa a vida com este riso de gozo, mamã. Já estou habituada. Tu é que não vês.
– desabafou a caçoila.
– Não, não comeces. Espera, mãe! Falta o
Augusto!... Auguuuuuuuuussto! Anda ! É hora do treino! Traz a guitarra e a Flor!
– ecoou o André.
- Apre! Já estou a chegar. É só um
segundo. O computador está a encerrar. Pronto! – retorquiu o Augusto.
– Ó mãe… – bichana a Juliana, enquanto se
ajoelha e coloca as mãos em jeito de reza.
– Oh, já começa… Diz. O que foi, desta vez? O
que é que tu me vais pedir?
– Ó mãezinha… deixa-me furar as orelhas, por
favor! É a minha prenda de aniversário. – pedincha a menina.
– Nós já conversámos sobre isso,
filha, lembras-te? – reverberou, enfastiada.
– Sim, eu sei. Prometes que me levas
no fim de semana, então? – insistiu a menina.
– Já te disse que sim, chata! Cruzes!
Não me dás sossego. Sempre a pedir, sempre a pedir…– reclama, enquanto respira fundo. – Aguardai mais um pouco. Só vou à casa de banho
e já volto.
– Espera, mãe. Quero dizer-te outra
coisa. – lamuria, enquanto se apressa atrás da mãe.
– Ó rapariga, dá-me alguma
privacidade, pode ser?
– Não é isso, mãe. Já começou.
– Juliana, não sejas sarna. Fecha a porta. Não
vês que estás a ser inconveniente?
– Ó mãe, tu não percebes. Já começou.
– Já começou o quê? Arreda daqui! Não
me aborreças com as queixinhas do teu irmão. Fecha lá a porta, vá.
– Ó mãe! Isto. Isto. Já começou. –
nesse preciso instante, a menina baixa as calças. – É sangue, mamã. Acho que
estou menstruada.
Embasbacada, e sem saber o que dizer, olha
para a filha. A filha devolve o olhar e o ar de espanto.
–
Xiiiiiiiiii!
– Xiiiiiiiiii mesmo, mãe.
– Ok. Espera um pouco que eu já te
atendo. – hesitou, perplexa. A fazer contas como que a confirmar que o relógio
da vida dava as horas certas. E, talvez, sim. A sua menina já há uns meses que
apresenta sinais de modificações pertinentes no corpo: o peito, os pelos, a
altura. Prestes a completar 11 anos.
Anda com um humor insuportável, com a sensibilidade à flor da pele. Chora por
tudo e por nada. E tem a fome de 20 leões. Sim, é isso. A sua menina prepara-se
para ser uma mulherzinha. De repente, ficou nostálgica. Como o tempo passa…
– E agora, mamã? – pasmou a Juliana.
– Agora, lavas-te e colocas o penso.
– E posso tomar banho? Não faz mal? –
duvidou a menina.
– Deves tomar banho. Nesta altura é
quando deves ter mais cuidado com a tua higiene. Não. Não faz mal algum.
– Os professores não vão deixar-me ir à casa
de banho e eu preciso, para mudar o penso. – temeu.
– Ó filha, não precisas de mudar o
penso a toda a hora. Basta ires à casa de banho nos intervalos. – esclareceu.
– Mamã? Hmmm, parece que carrego duas
sacas bem pesadas, hmmm – gemeu. – Doem-me as costas, ao fundo. Fazes-me uma
massagem, enquanto contas a história?
– Está bem. Daqui a pouco faço-te uma;
e dou-te um chazinho, sim?
– Mamã? O que é que eu digo na
escola? – insistiu, receosa.
– Não dizes nada. Isso é normal. Se
tiveres dores, e alguém perguntar, pedes para telefonar à mãe. Se alguém
insistir, em querer saber, dizes a verdade. Percebeste?
– Sim, percebi.
– Ei, minha gente! Ninguém aborreça a
Juliana. Ela informa a restante família de que o seu corpo está a dar sinais de
ser uma mulherzinha. – suspira, pousando os olhos no André. – E tu? Já és um
homenzinho? Nunca me disseste nada?
– Ó mãe, menos… – reclama o rapaz, olhando de esguelha,
visivelmente envergonhado.
– Ó filho, não
precisas de ter vergonha da tua mãe. Cresceste, tens pelos pelo corpo todo, a voz
engrossou… Cá p’ra mim, há homenzinho.
– Agora que falas
nisso… ó mãe, já há uns dias que ando p’ra te dizer que, às vezes, acordo
molhado e peganhento durante a noite. Mas os professores, quando falam da
sexualidade nos adolescentes, dizem que é normal. É normal?
– É normal, sim. Parabéns, filhotes! Estais
crescidos e a mamã a ficar velhota.
– Isso é verdade, mamã. A pele da Ju é fofinha,
a tua está toda engelhadinha. A tua carne é mole, parece gelatina; a da Ju é
rija, sabe bem morder. – constatou o André.
– Chiça, o que uma mãe se sujeita a
ouvir. Não abuses da conversa, rapaz. Eu
digo-te o “gelatina”, eu digo-te o “sabe bem morder”. Dá descanso à tua irmã,
ouviste?
– Ok, mãe, não te preocupes. A carne
do papá também era durinha, só músculo.
– A carne do papá… Só músculo… – balbuciou a mãe, de olhar distante. – Músculo
de muito trabalhinho. O trabalho torna os homens mais bonitos e as almas desses
homens são o músculo de todas as vidas em redor. Homens como o vosso pai, mesmo
quando deixam de estar, mesmo quando os nossos olhos já não são capazes de os
ver, ficam sempre nos nossos corações. E tornam-nos mais fortes.
– Eu sei, mamã. Sempre que penso no papá,
sinto-me muito forte. Sinto-me filho de um herói. Eu herdei poderes especiais,
sabes? O poder de morder toda a gente nesta casa, ah, ah, ah, ah!
– Engraçadinho… E o poder de aspirares, e o
poder de fazeres as camas, e o poder de ires buscar o pão, e o poder de
ajudares a mamã a carregar as compras, e, dentro em breve, o poder de
cozinhares; porque, sim, já é hora de começares a pensar em aprender a
cozinhar.
– Certo. Não me importo nada de ser um dos
homens da casa. Eu sei que o papá gosta. A história, mamã?
Conceição Sousa in "Em Busca da Flor de Mil Cores 1"
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