quarta-feira, 5 de novembro de 2014

2- Guerra de Titãs


2- Guerra de Titãs

– Arre! Posso começar, meninos? Se não se acalmarem, se não pararem de correr, se não estiverem quietos, sentadinhos, caladinhos e sossegadinhos a ouvir-me, não há história p’ra ninguém! Entendido? Então como é? Estou a falar para o boneco?

– Para, André! Não vês que a mãe está a falar? E quando um burro fala os outros baixam as orelhas! – rematou a Juliana.

– O que é isso, menina? Queres ser castigada? – enfureceu-se.

– Oh, desculpa, mamã! É uma maneira de dizer. – remediou-se a menina.

– Oh, desculpa, mamã! É uma maneira de dizer! – imitou o André, num tom lânguido de desdém, muito próprio de manos a embirrar com manas. – Parece uma Barbie, armada em senhoreca, com os tacões altos, a bolsinha no braço, o colar de esmeraldas ao pesco…

– Minha Nossa Senhora! Queres calar-te, André? – avisou a mãe, em tom de castigo iminente.

 – … ço. Pescoço. E batom! Vês, mamã! A boneca dos Morangos usa batom! – troçou o rapaz, não satisfeito.

– Poça, rapaz! Cala-te! Pelo amor da santa! Tens um feitio tão feio. Olha que assim poucos amigos terás na vida! Estima a tua irmã, filho. Sempre a guerrear, sempre a guerrear. – suplicou, visivelmente derreada.

      – Está bem, mamã, sossega. – abraçou-a com ares de mimo.

– Ai, ai, ai, ai, menina! – replicou, na direção da filha. –  Não penses que não te vi a deitar a língua de fora. Não sejas sonsa. E que maneira tão tonta de falar! Agora a mãe é uma burra? Há provérbios que não se repetem, ouviste? E não gosto que ponhas batom, nem que vejas os Morangos!

 – Desculpa, mamã. – choramingou a menina, enquanto abraçava a progenitora, visivelmente a competir com o irmão.

 – Hummm!, já passou, pronto; já passou. Posso começar, Exmo. Sr. Dr. Sorriso Amarelo?

   Ele passa a vida com este riso de gozo, mamã. Já estou habituada. Tu é que não vês. – desabafou a caçoila.

 – Não, não comeces. Espera, mãe! Falta o Augusto!... Auguuuuuuuuussto! Anda ! É hora do treino! Traz a guitarra e a Flor! – ecoou o André.

- Apre! Já estou a chegar. É só um segundo. O computador está a encerrar. Pronto! – retorquiu o Augusto.

 – Ó mãe… – bichana a Juliana, enquanto se ajoelha e coloca as mãos em jeito de reza.

 – Oh, já começa… Diz. O que foi, desta vez? O que é que tu me vais pedir?

 – Ó mãezinha… deixa-me furar as orelhas, por favor! É a minha prenda de aniversário. – pedincha a menina.

– Nós já conversámos sobre isso, filha, lembras-te? – reverberou, enfastiada.

– Sim, eu sei. Prometes que me levas no fim de semana, então? – insistiu a menina.

– Já te disse que sim, chata! Cruzes! Não me dás sossego. Sempre a pedir, sempre a pedir…–  reclama, enquanto respira fundo. –  Aguardai mais um pouco. Só vou à casa de banho e já volto.

– Espera, mãe. Quero dizer-te outra coisa. – lamuria, enquanto se apressa atrás da mãe.

– Ó rapariga, dá-me alguma privacidade, pode ser?

 Não é isso, mãe. Já começou.

 Juliana, não sejas sarna. Fecha a porta. Não vês que estás a ser inconveniente?

 – Ó mãe, tu não percebes. Já começou.

– Já começou o quê? Arreda daqui! Não me aborreças com as queixinhas do teu irmão. Fecha lá a porta, vá.

– Ó mãe! Isto. Isto. Já começou. – nesse preciso instante, a menina baixa as calças. – É sangue, mamã. Acho que estou menstruada.

 Embasbacada, e sem saber o que dizer, olha para a filha. A filha devolve o olhar e o ar de espanto.

  Xiiiiiiiiii!

– Xiiiiiiiiii mesmo, mãe.

– Ok. Espera um pouco que eu já te atendo. – hesitou, perplexa. A fazer contas como que a confirmar que o relógio da vida dava as horas certas. E, talvez, sim. A sua menina já há uns meses que apresenta sinais de modificações  pertinentes no corpo: o peito, os pelos, a altura.  Prestes a completar 11 anos. Anda com um humor insuportável, com a sensibilidade à flor da pele. Chora por tudo e por nada. E tem a fome de 20 leões. Sim, é isso. A sua menina prepara-se para ser uma mulherzinha. De repente, ficou nostálgica. Como o tempo passa…

– E agora, mamã? – pasmou a Juliana.

– Agora, lavas-te e colocas o penso.

– E posso tomar banho? Não faz mal? – duvidou a menina.

– Deves tomar banho. Nesta altura é quando deves ter mais cuidado com a tua higiene. Não. Não faz mal algum.

 – Os professores não vão deixar-me ir à casa de banho e eu preciso, para mudar o penso. – temeu.

– Ó filha, não precisas de mudar o penso a toda a hora. Basta ires à casa de banho nos intervalos. – esclareceu.

– Mamã? Hmmm, parece que carrego duas sacas bem pesadas, hmmm – gemeu. – Doem-me as costas, ao fundo. Fazes-me uma massagem, enquanto contas a história?

– Está bem. Daqui a pouco faço-te uma; e dou-te um chazinho, sim?

– Mamã? O que é que eu digo na escola? – insistiu, receosa.

– Não dizes nada. Isso é normal. Se tiveres dores, e alguém perguntar, pedes para telefonar à mãe. Se alguém insistir, em querer saber, dizes a verdade. Percebeste?

– Sim, percebi.

– Ei, minha gente! Ninguém aborreça a Juliana. Ela informa a restante família de que o seu corpo está a dar sinais de ser uma mulherzinha. – suspira, pousando os olhos no André. – E tu? Já és um homenzinho? Nunca me disseste nada?

– Ó mãe, menos…  – reclama o rapaz, olhando de esguelha, visivelmente envergonhado.

       – Ó filho, não precisas de ter vergonha da tua mãe. Cresceste, tens pelos pelo corpo todo, a voz engrossou… Cá p’ra mim, há homenzinho.

     – Agora que falas nisso… ó mãe, já há uns dias que ando p’ra te dizer que, às vezes, acordo molhado e peganhento durante a noite. Mas os professores, quando falam da sexualidade nos adolescentes, dizem que é normal. É normal?

     – É normal, sim. Parabéns, filhotes! Estais crescidos e a mamã a ficar velhota.

 – Isso é verdade, mamã. A pele da Ju é fofinha, a tua está toda engelhadinha. A tua carne é mole, parece gelatina; a da Ju é rija, sabe bem morder. – constatou o André.

 – Chiça, o que uma mãe se sujeita a ouvir.  Não abuses da conversa, rapaz. Eu digo-te o “gelatina”, eu digo-te o “sabe bem morder”. Dá descanso à tua irmã, ouviste?

– Ok, mãe, não te preocupes. A carne do papá também era durinha, só músculo.

– A carne do papá… Só músculo…  – balbuciou a mãe, de olhar distante. – Músculo de muito trabalhinho. O trabalho torna os homens mais bonitos e as almas desses homens são o músculo de todas as vidas em redor. Homens como o vosso pai, mesmo quando deixam de estar, mesmo quando os nossos olhos já não são capazes de os ver, ficam sempre nos nossos corações. E tornam-nos mais fortes.

 – Eu sei, mamã. Sempre que penso no papá, sinto-me muito forte. Sinto-me filho de um herói. Eu herdei poderes especiais, sabes? O poder de morder toda a gente nesta casa, ah, ah, ah, ah!

 – Engraçadinho… E o poder de aspirares, e o poder de fazeres as camas, e o poder de ires buscar o pão, e o poder de ajudares a mamã a carregar as compras, e, dentro em breve, o poder de cozinhares; porque, sim, já é hora de começares a pensar em aprender a cozinhar.

 – Certo. Não me importo nada de ser um dos homens da casa. Eu sei que o papá gosta. A história, mamã?
 
Conceição Sousa in "Em Busca da Flor de Mil Cores 1"

Sem comentários:

Enviar um comentário